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Causas da depressão são multifatoriais

28 de janeiro de 2015
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A depressão é atualmente a quarta causa de incapacidade no mundo e deverá ser a segunda até 2020, segundo a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em um estudo da OMS, com apoio de patrocina­dores e pesquisadores de 18 países, divulgado no ano passado, o Brasil apresentou a maior prevalência de casos graves da doença: 10,4% da população investigada. Na pesquisa, foram analisados dados de 89 mil pessoas. O Japão teve o menor índice do proble­ma, registrando 2,2% de ocorrência de depressão seve­ra. É importante ressaltar que a amostra brasileira, com informações de 5.037 indivíduos, compôs-se exclusivamente por moradores da região me­tropolitana de São Paulo.

Os problemas mentais e comporta­mentais, como a depressão, já con­figuram entre as principais cau­sas de afastamento do trabalho. No caso dos professores, infeliz­mente, não existem índices na­cionais que permitam traçar um panorama da gravidade da doen­ça, mas algumas pesquisas reali­zadas isoladamente por sindica­tos apontam que, de forma geral, a depressão é um dos males que mais ameaçam tirar os educadores da sala de aula e possui números ainda mais alarmantes do que o obtido no mapeamento da OMS.

Um levantamento feito em 2011 pelo Centro Municipal dos Professores (CMP) de Passo Fundo (RS), com a supervisão e acompanhamento do Sindicato dos Servidores Municipais de Passo Fundo (Simpasso), com 397 docentes, que representam 33% dos efetivos da rede mu­nicipal, apontou a depressão como o segundo problema de saú­de mais recorrente, atingindo 17% dos entrevistados e ficando atrás apenas do estresse, enfermidade que acomete 35% dos educadores. No estudo Saúde e Condições de Trabalho, conduzido em 2010 pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a depressão aparece como diagnóstico confirmado de 26,6% dos participantes da amostra, for­mada por 1.615 educadores de ní­vel fundamental e médio da rede estadual paulista.

A depressão é uma doen­ça multifatorial, causada, segun­do a médica psiquiatra Giuliana Cividanes, mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por fatores genéti­cos, biológicos e ambientais. “Sabemos que existem genes que conferem maior ou menor vulnerabilidade ao apareci­mento da depressão, assim como de ou­tros transtornos psiquiátricos, e ne­nhum psiquiatra questiona a contribuição do estresse preco­ce (na infância) na gênese dos quadros depressivos e ansio­sos.” Por bastante tempo, tam­bém se bateu na tecla de que a depressão seria provocada por uma desordem na pro­dução dos neurotransmisso­res, como a serotonina, no­radrenalina e dopamina, que exercem influência so­bre o humor, a ansiedade e o estado afetivo. “Ao longo do tempo, essa teoria vem sendo revista e analisada, e hoje dizer que a cau­sa da depressão é apenas um desequilíbrio quími­co seria um grande redu­cionismo”, explica a mé­dica. Segundo Giuliana, estudos científicos mostram que mulheres entre 25 e 35 anos de ida­de, pessoas solteiras, divorciadas, viúvas e com histórico de depressão na família apresentam uma chance aumentada de desenvolver quadros depressivos.

O médico homeopata e especialis­ta em Nutrologia Médica, Silvio Laganá de Andrade, de São Paulo (SP), afirma que hoje também se considera a possi­bilidade de que o transtorno depressivo possa ser decorrente de uma pequena inflamação do cérebro, que ocasionaria deficiências no sistema neurorreceptor, ou seja, mesmo com níveis adequados de neurotransmissores os indivíduos predispostos estariam mais suscetíveis à doença devido a essa falha. A predispo­sição genética deve ser levada em consi­deração, porém o médico também alerta para a importância de verificar se a de­pressão não é de origem reativa. “É pre­ciso conhecer o tipo de depressão. Se é uma depressão reativa, a partir de uma causa, como a perda de um ente querido, a separação de um cônjuge, um proble­ma no trabalho, a constância de tensão, cobrança, que pode levar a uma reação depressiva, ou [se é] uma depressão or­gânica, quando há realmente uma pre­disposição à doença”, descreve.

No contexto dos educadores, os fato­res ambientais, como o estresse e as más condições de trabalho, podem funcio­nar como um gatilho para o surgimen­to do transtorno depressivo. Para o presi­dente do Simpasso, Marcelo Domingues Ebling, o levantamento com os profes­sores de Passo Fundo comprovou que as atividades laborais estão estreitamen­te relacionadas ao estado de saúde des­ses servidores. “A pesquisa mostrou que os educadores estão inseguros, preocu­pados, estressados e sujeitos a uma série de doenças que poderiam ser evitadas com o devido descanso e condições ade­quadas de trabalho. A depressão aliada à sensação de insegurança e impotên­cia frente à situação coloca os professo­res em uma situação de risco.

Tratamento

Diferentemente da síndrome de burnout, tema abordado na edição anterior da Profissão Mestre, a depressão acomete o indivíduo globalmente, isto é, em todos os âmbitos de sua vida, não apenas no trabalho. Isso significa que o problema não é depressão se o indivíduo melho­ra fora do ambiente profissional. Como qualquer outra doença, o transtorno depressivo requer tratamento. “Como a depressão é uma doença multifatorial, o melhor tratamento é aquele que in­clui uma abordagem biológica, ou se­ja, o uso de medicamentos, combinado com uma abordagem psicológica (psico­terapias) e alterações de hábitos, com­portamentos e ambiente quando neces­sários”, afirma a psiquiatra Giuliana. Dependendo da intensidade da depres­são e do tipo de tratamento, é possível continuar com as atividades normais de trabalho, sobretudo nos casos leves a moderados. “Às vezes, manter-se no trabalho até ajuda na recuperação mais rápida do quadro depressivo, pois evi­ta que o paciente sinta-se incapaz, com baixa autoestima ou com muita pena de si mesmo. Em quadros depressivos graves, onde a lentificação psicomotora é muito intensa, dificilmente o indiví­duo consegue manter-se ativo”, esclare­ce a médica.

A consequência mais grave para os casos de depressão sem tratamento é o suicídio. A maior parte das pessoas que atentam contra a própria vida fazem uso de antidepressivos ou passam por quadros depressivos não diagnostica­dos e/ou tratados, segundo a psiquiatra. Apesar disso, o estudo da OMS revelou que apenas pouco mais de um terço dos paulistanos com episódios de depres­são grave, constatados pela pesquisa, recebem algum tipo de tratamento. As outras consequências mais comuns da doença são: perda de produtividade, di­ficuldade nos relacionamentos amoro­sos ou até mesmo o rompimento dessas relações e cronificação do quadro. Durante o tratamento dos casos mais severos, é importante analisar o im­pacto produzido pelo ambiente de tra­balho. Somente o médico especialista saberá avaliar a necessidade de afasta­mento e o momento de retomar as ati­vidades na escola. “Como a depressão é uma doença multifatorial, ambientes estressantes de trabalho podem con­tribuir para a sua gênese. E retornar ao mesmo ambiente antes da remissão do quadro depressivo pode impedir que es­sa remissão ocorra”, alerta Giuliana.­

Alguns sintomas

Segundo a médica psiquiatra Giuliana Cividanes, a depressão é uma síndrome que acomete o indi­víduo globalmente, desencadeando sintomas que aparecem em todos os contextos de sua vida e que são ca­racterizados principalmente por:

• Tristeza profunda sem causa apa­rente ou falta de prazer/satisfação em situações ou ações anterior­mente prazerosas;

• Alterações de sono e apetite, para mais ou menos;

• Alterações de funções cognitivas: dificuldade em se concentrar, to­mar decisões, memorizar novos fa­tos;

• Lentificação do pensamento e tam­bém dos movimentos (lassidão);

• Diminuição funcional global: queda de rendimento no trabalho/escola, cansaço físico/fadiga, dificuldade para sentir emoções.

Falta de nutrientes

O nutrólogo Silvio Laganá de Andrade enxerga a doença por uma outra pers­pectiva. O médico afirma que, em muitos casos, o estresse adrenal ou a exaustão suprarrenal, como também é conhecida a sobrecarga da glândula su­prarrenal, pode simular a depressão. Esse estado gera um aumento na des­carga de adrenalina, que desencadeia sintomas parecidos com o da depressão, como fadiga, desânimo, falta de vonta­de de levantar da cama, etc. O proble­ma, segundo o médico, pode surgir nas situações de estresse e também quan­do a pessoa fica muitas horas sem co­mer e, dessa forma, o organismo precisa liberar adrenalina para extrair glicose do fígado, a fim de manter o nível ade­quado de açúcar no sangue. “A crian­ça pequena com fome, por exemplo, fi­ca irritada, chorosa. Você dá comida e ela melhora, porque isso é um estado de estresse agudo. Assim que cessada a causa, que seria a baixa glicose, ela me­lhora. O adulto se adapta a essa falta de glicose, mas com descarga de adrenali­na, que vai sobrecarregando a suprarre­nal com o tempo até entrar no que cha­mamos de exaustão de suprarrenal. E isso se assemelha muito à depressão”, exemplifica.

Para evitar essa situação, o médi­co afirma que é essencial se alimentar a cada três horas para reduzir as osci­lações da glicose no sangue. “Quanto mais alteração houver na glicose, mais chance de apresentar alteração de hu­mor durante o dia por causa das vá­rias liberações de adrenalina e corti­sol. E isso cronicamente acaba fazendo com que o indivíduo possa estar mais sujeito a adoecer”, reforça. Além dis­so, Andrade destaca que a falta de nu­trientes adequados também favorece a manifestação da depressão, e que uma alimentação balanceada é essencial pa­ra diminuir a ocorrência da síndrome. “O ômega 3 [ácido graxo] é super im­portante no tratamento e prevenção da depressão. Até da depressão puerperal [pós-parto]. A falta de ômega 3 tam­bém pode favorecer a depressão”, res­salta o médico.

O nutrólogo afirma que interferin­do nutricionalmente por meio de uma alimentação funcional, ou seja, que fa­voreça o bom funcionamento do orga­nismo, já é possível obter grande me­lhora nos quadros depressivos (leia dicas no quadro em destaque). Apesar de reco­nhecer a importância da predisposição genética, o médico acredita que o equi­líbrio nutricional desempenha um pa­pel crucial no desenvolvimento das pa­tologias. “O professor estará menos suscetível à depressão ou ao estresse de forma geral [se estiver equilibrado nu­tricionalmente], ou a qualquer outra patologia que se relacione a uma sobre­carga do organismo.”

Os dois especialistas chamam a atenção para a necessidade de uma vi­da saudável como forma de preve­nir a depressão, assim como outras doenças multifatoriais, já que contra os próprios genes não é possível fazer nada. Como qualquer outra máquina, o corpo humano, quando sobrecar­regado, tende a apresentar problema nos pontos individuais de maior sus­cetibilidade. Fazer exercícios e ter mo­mentos de lazer são recomendações fundamentais para manter as engre­nagens em equilíbrio. Entretanto, no Relatório de Pesquisa sobre a Situação dos Trabalhadores da Educação Básica, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) com o Dieese, de 2003, apenas 17% dos entrevistados, de um grupo de 4.656 pessoas de dez Estados brasilei­ros, afirmaram praticar atividade físi­ca regularmente. Segundo Andrade, o neuropsiquiatra francês David Servan- Schreiber, em seu livro Curar – O es­tresse, a depressão e ansiedade sem medi­camento nem psicanálise, da Sá Editora, do qual o nutrólogo brasileiro é con­sultor científico, apresenta um estu­do que mostra que andar meia hora de bicicleta, três vezes por semana, equi­vale a tomar um antidepressivo (como Prozac), porém com mais vantagens. “Ao parar de tomar o antidepressivo, em três meses você pode retornar ao estado anterior. Já depois da ativida­de física, praticada durante um ano pelo menos, é possível ficar mais um ano sem fazer e ainda assim man­ter os benefícios, além de trazer ou­tros benefícios também para a saúde emocional e cardiovascular.”

Alimentação funcional contra a depressão

• Consumir alimentos ricos em ôme­ga 3, principalmente peixes de água salgada (como a sardinha) e semente de linhaça;

• Incluir na dieta sementes oleagino­sas, como nozes e castanhas;

• Comer cereais integrais: aveia, qui­noa e amaranto;

• Evitar cafeína e açúcar;

• Não deixar de se alimentar a cada três horas.

Fonte: Silvio Laganá de Andrade, médico ho­meopata e especialista em Nutrologia Médica.

O nutrólogo Silvio Laganá de Andrade de­fende que é possível obter melhora nos qua­dros depressivos por meio de uma alimenta­ção com nutrientes adequados

 

Fonte: Revista Profissão Mestre

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